Entries for October, 2004

October 4, 2004


Possuído



Meio da madrugada, desço para tomar um copo de leite. Foi um dia complicado, trabalhando na Festa da Democracia. Claro teve lá suas compensações...
Ser presidente da mesa é legal! Rever os amigos também! E tem aqueles 0,02% que me abriram um largo sorriso, restituindo minha fé.
Abro a geladeira. Pego a caixa de leite, usando apenas a luz da própria geladeira para iluminar a cozinha. Viro-me para pegar o copo e lá está ele. Sentado no banquinho branco de plástico que sempre fica do lado do armário. Fumando um Hollywood Menta e coçando a barba, levemente. Um estranho. Um estranho encardido, embora não exatamente sujo. Uma mistura bizarra de Al Pacino, Gandalf e Hellboy, bem ali no meio da minha cozinha. Uma figura que eu desconheço completamente.

- Quem diabos é você?
- É engraçado que a resposta já esteja na sua pergunta...

Meu sangue gela. Meu cabelo arrepia. Seja como for, aquilo fala. E não tem a menor cara de ser mais um sonho psicodélico.

- Como é que você entrou aqui???
- Já ouviu dizer que mente vazia é a oficina do diabo?
- Eu tenho trabalho, faculdade, namorada e uma porrada de livros para ler. Definitivamente, “vazia” é a última coisa que poderia definir a minha cabeça.
- Lá isso é...
- E, vá me desculpar a franqueza, mas eu não acredito em demônio algum.
- Ah, bem que Ela me avisou.
- Ela quem?
- Ela, você sabe, Ela Mesma.
- Huuuuuuuuuum, deus?
- Oh, sim, isso mesmo. Ela me disse o quanto seria difícil convencê-lo, o quanto você é cético e, ainda muito mais, teimoso.
- Ela me conhece bem, pelo visto. Ok, hoje foi um dia cheio e eu só quero tomar um pouco deste leite e voltar para minha cama. Dá para explicar “que diabos” o senhor faz aqui na minha cozinha?
- Olha, eu vou ser franco. Eu vim para ficar.
- Como é que é???
- Seguinte... eu estou me aposentando. Eu não mando no Inferno já faz um bom tempo, nada lá é como deveria ser. Quer dizer, quando eu comecei com essa história, todas as coisas eram bem diferentes... Ela tinha as funções Dela, eu tinha as minhas... agora ficou bem mais confuso e já deu no saco. Larguei mão. Mereço me aposentar e vai ser agora mesmo.
- E o que é que eu tenho com isso? Se nem no diabo acredito, que se dirá do inferno... faça-me o favor! Vá atormentar os tementes!
- As coisas não são tão simples... e, por favor, não me chame de Diabo, Demônio, Satã e similares. Quer dizer, esses nomes já caíram na boca do povo, ficou um negócio banal, vulgar. Isso acabou com a minha imagem.
- E como é que eu deveria te chamar?
- De Loki, esse é um bom nome.
- Âhn, acho que não seria nada apropriado... quer dizer, mitologicamente falando, não há exatamente relação entre você e esse...
- Ora, por favor! Que sabiam aqueles nórdicos enterrados no gelo? Eles confundiram tudo, era uns pessimistas sem a menor sensibilidade... pode me acreditar, Loki é perfeitamente o que eu sou.
- Não me convenceu...
- Ok, ok... Chame-me de Seth então. Taí, um nome que ainda não se arrasta na lama.
- Aí sim dá para entender...
- Mas que eu sou Loki, ah, isso é verdade...
- Ok, vou ler sobre isso... mas e daí? Por que aqui, por que eu?
- Bom, quando eu disse a Ela que saturei, ficamos num impasse. Ela não tinha aonde me deixar, não sabia bem que rumo tomar. Tipo, me ver jogando xadrez com São Paulo lá no Paraíso não ia pegar nada bem para a imagem dos caras Dela. E aí surgiu essa idéia...
- Fala logo, porra...
- Ela me disse que você seria um dos poucos humanos que poderiam se divertir com toda essa situação. Que a sua visão peculiar das coisas poderia favorecer nosso objetivo...
- Que é...?
- Bom, eu vou ficar aqui com você até Ela me achar um lugar bacana...
- Oh, saaaaaaaaaaaaaaco... e se eu não topar?
- Acha mesmo que tem essa opção?
- E onde “diabos” você vai ficar???
- Na sua cabeça, evidentemente. É onde costumo ficar nesses casos. Mas não se preocupe, não vou te atrapalhar, não vou te aporrinhar. Fico no banco de trás e tudo se resolve. De quebra, ainda tomo conta do seu blog pra você, já que ocupações não te faltam. Que tal essa?
- Vou tomar meu leite e deixar essa merda pra lá.
- Eu não teria dito melhor...


Vai daí, o Clube está temporariamente sob nova direção...


:: Por Caco, o Sapo às 02:58 PM :: 1 comments


October 5, 2004
O Livro De Seth, Tomo I

Minha visão da História



Convenhamos, eu mereço ser ouvido. Quer dizer, quem foi que me deu espaço na mídia para dizer como é que as coisas foram mesmo? Essa é uma tremenda injustiça, já que a própria televisão (e, em especial, as novelas da Globo,do SBT e afins) está intimamente ligada a projetos meus.
Mas vamos lá.
De uma forma muito particular, fazemos todos parte Dela. Todos mesmo, incluindo vocês e eu. É aquele lance de onipresença, manja? Pois bem, é assim que a coisa rola. Em outra oportunidade eu conto exatamente como é que isso funciona, mas agora vamos nos manter na história da História, certo?
Quando Ela criou o Universo, na verdade era Ela quem nascia. Como ficava difícil encarar os pequenos detalhes sendo o próprio Todo, Ela gerou lá aquela pequena referência básica, uma espécie de espelho diminuto: o tal Javéh, se vocês preferirem dar nome aos bois.
Sim, acho que foi aí que começou aquele papo de atrás de um grande homem vem sempre uma grande mulher. Mas o Jajá era muito antiquado, se me permitem observar.
Ele fez o mundo, tá certo. E pra mostrar serviço, tascou cimento, carvão e matéria em sete dias. Fez um trabalho admirável e engenhoso, pode crer. Mas não perfeito, como todo mundo já sabe...
Nós, os anjos, estávamos lá para dar aquela força. Pois é, vocês já sabem, eu era um anjo. Luciferel, para ser mais exato. Algo como a luz ou o fogo de Deus. Mania besta essa de anjo dizer que é “alguma coisa de deus”. Eu tava nessas também, mas omiti o “el” posteriormente, porque nem fazia mais sentido, concordam?
Bom, eu estava lá com todos aqueles caras penosos e com rostinho de Sinéad O´Connor. Vivíamos a democracia do Jajá-sabe-tudo e mantínhamos alguns humanos na linha.
Olha, vocês podem até não acreditar, mas eu manjo pacas de gamão. Eu não perco uma partida, podem crer! O Gabriel perdia todas na minha mão. Não acho que ele gostava muito disso...
Toda vez que o Gabriel chegava com algum despacho do Jajá, eu tirava uma com a cara dele. Não por mal, mas eu achava um sarro ele vir com aquela cara de pompa, como se fosse algo muito importante... caramba, não éramos todos iguais? Aquele nariz em pé era impagável...
Bom, acho que foi aí que a nossa relação começou a degringolar...
Toda vez que vinha uma ordem do Jajá, eu dava a minha opinião. Se não concordava, não fazia. Se via um jeito melhor de fazer, fazia. Se achava que podia, mandava brasa. Pra mim, Ele era só um pálido reflexo Dela e isso por si só nos colocava em pé de igualdade.
O Gabi ficou meio puto com o meu estilo comunista de ser e fechou a cara por uns tempos. Eu fiquei na minha, já que o fogo de deus era eu, oras bolas.
A coisa ficou feia mesmo foi quando o meu jeito liberal caiu nos ouvidos do Jajá (quem será que abriu a bocona?). O Poderoso me chamou de canto e perguntou qual era a minha, afinal. Eu me fiz de inocente e disse que a minha era a Nossa, já que estávamos todos remando o mesmo barco. Só que o Jajá tinha uma opinião diferente sobre o tema e fez questão de mostrar que naquele barco só um apitava, e esse não era eu.
Fiquei cabreiro com aquela nova configuração da ordem. Sempre achei que “feitos a imagem e semelhança” queria dizer tremendamente parecidos. Mas vi que o negócio estava mesmo para Todos iguais, mas uns mais iguais que os outros.
Quis argumentar. Outros acharam que valia a pena fazer o mesmo. Nos unimos democraticamente, tomamos um ou dois copos de 51 (parecia uma boa idéia...) e fomos ter com O Cara. Mal sabíamos que Gabriel-manja-nada-de-gamão e sua corja de anjos andróginos e puxa-sacos já estavam a postos para defender a oligarquia paradisíaca.
Não preciso dizer o quanto um bando de anjos idealistas e meio bêbados, dispostos a conversar, estão em desvantagem quando confrontando um exército de anjos raivosos e vingativos, dispostos a empalar.
Foi um fuzuê dos diabos, se me permitem a piadinha infame.
Com o rabinho entre as pernas (e ardendo pacas) fomos enxotados, arremessados pra fora do céu mais rápido do que vocês podem dizer “vão pro diabo que te carregue”.
Confesso, doeu. Magoou. Chateou pacas.
No Céu, aquelas malditas trombetas tocavam o tempo todo. Era a merda de uma festa sem hora para acabar. Ficou bem chato pra gente. Eles começaram a cantar vantagem, e nós lá, nos arrastando na lama.
Como qualquer um sabe, o mérito de uma vitória é mensurado pelo valor de seus inimigos. E como não poderia ser diferente, quem conta um conto aumenta um ponto. Os caras lá de cima trataram de dizer que enfrentaram hordas fortemente armadas de anjos revoltosos. Que nós éramos uns safados usurpadores totalmente preparados para dar um golpe celestial. Se não fosse pelo Gabriel, o nobre comandante da galera, o céu estaria um verdadeiro inferno.
Aliás, foi por essa época que nós formamos o Inferno, propriamente dito. Mas não se enganem. Nós éramos apenas uma agremiação de anjos derrotados, tomando umas cervejas e nos reunindo de domingo para contar as mágoas e comer um churrasquinho. Puta merda, na época parecíamos mesmo um grupo de auto-ajuda, podem me acreditar! Os anjos do Cara tiveram a cara-de-pau de deturpar até o nosso churrasquinho (de onde você acha que vem a lenda dos fogos infernais queimando as carnes dos condenados?).
Como até anjo caído tem brio, começamos a confirmar as historinhas que os caras de lá criavam. Sim, éramos perigosos, fortes e determinados. Sim, nós somos bad-birds, nós não escovamos os dentes, nós soltamos pum no elevador. Nós somos a galera revoltada do cosmo, nós somos a anarquia ganhando forma, podes crer!
Pode até não parecer, mas foi essa atitude que mudou o rumo da história... ou melhor, da História... Quando nós decidimos vestir a carapuça, mais e mais...
Peralá, seu Seth! Você não acha que foi rápido demais na hora de falar da criação? E os humanos, quando é que apareceram nessa história toda? E que treta bizarra é essa de Javéh e Ela serem coisas diferentes???
Ai, Caco, deixa de ser chato! Tá vendo só? Perdi o fio da meada! Olha, eu conto isso tudo o que você perguntou e até um pouco mais, mas deixa eu contar aos poucos, pode ser?
Até pode, mas vai ser agora? Acho que ninguém quer ler mais do que isso, o texto já está bem grandinho...
Oh, que seja... eu perdi mesmo o que ia dizer na seqüência...
Ei, Caco! Você sabe jogar gamão?


Assim disse Seth, direto da cabeça do Sapo


:: Por Caco, o Sapo às 04:58 PM :: 2 comments


October 13, 2004
O Livro de Seth, Tomo II

De como passei de

“Senhor do Inferno”

para

“Trouxa Celestial”



Bom, antes de ser interrompido pelo Caco, eu falava da mudança brutal que ocorreu no Inferno quando nós optamos por vestir a camisa que os caras lá de cima teimavam em nos jogar. Claro que não éramos malvadões fodidos esperando uma alma pagã tropeçar, mas éramos sim a resistência, os revolucionários que gritavam “NÃO” aos desmandos do Jajá. Mas só gritávamos, também claro está. Não tínhamos recursos nem colhões para mudar qualquer coisa, então apenas nos manifestávamos (bem, e dávamos boas festas).
Estávamos ressentidos e desejávamos vindicação.
Sim, fazíamos barulho e nada mais. Mas barulho incomoda e chama atenção pra cacete.
Aos poucos, fomos conquistando admiração e apoio de um bocado de gente. Querem ver só? Um bom exemplo é o caso da Lilith. Ah, Lilith.... ôh mulher complicada! Tão bonita, tão difícil. Primeira mulher nascida, fez porque fez, bateu o pé, queria os mesmos direitos do bestalhão do Adão. Lógico que o Jajá, gato escaldado com a nossa “revolução”, não curtiu a parada. Resultado: arrancou Lilith do jardim e, bom, já que estava nessas de arrancar mesmo, arrancou também a fertilidade da coitadinha. Quer dizer, coitadinha mas nem tanto... ou você acha mesmo que fui eu quem deu aquela maçã traiçoeira pra descerebrada da Eva? Putz, é claro que foi a Lilith!
Não demorou nada para que essa revoltada mulher viesse ter conosco uma conversa definitiva. Vocês deveriam saber que, em querendo, uma mulher faz o que quer de um homem (ou grupo de homens). Conosco não foi diferente e, em pouquíssimo tempo, eu passei de “Poderoso Regente do Inferno” para “o Carinha que Namora a Lilith, Senhora do Inferno”.
O caso é que a humanidade começou ali, naquela deliciosa maçã, e caiu de boca no mundo terreno. E sim, lamento quebrar seus sonhos encantadores da criação, mas Darwin estava certíssimo.

Aeeeeeeeeee!!! Eu sabia!!!

Quieto Caco, torcida não se manifesta! Aonde eu estava mesmo...? Ah sim, a evolução. Adão e Eva, esse belo casal pelado, nada mais era do que um lindo casal de macacos piolhentos. Trepavam sem parar e, podem apostar, povoaram esse mundo com sua raça de macacos piolhentos numa velocidade espantosa. Tão espantosa, por sinal, que pegou Jajá e seus Brians Molcos de calças curtas (o que é que esses caras estavam fazendo juntinhos com as ceroulas arriadas vai da criatividade de cada um).
Ao mesmo tempo em que o meu Inferno (desculpe, o Inferno da senhora minha esposa) ganhava fama de bastião dos independentes, o céu lotava de macacos piolhentos muito mal comportados. Imaginem o arrogante do Gabriel levando uma tabuleirada de gamão na testa, enquanto seu adversário peludo coça a bunda...
Mas o Jajá, mesmo sendo um conservador radical, não era burro! Tratou de fazer um acordo que matava 3 coelhos com uma praga divina só...
Quando recebi seu convite para tomar uma gelada no firmamento, quase não acreditei. Dando uma desculpa qualquer pra patroa, fui lá ter com O Poderoso. Eo que é que o danadinho queria comigo? Fazer as pazes, me digam só vocês a surpresa! E mais: me oferecer sociedade no negócio da humanidade!!!
Vejam bem, é lógico que a proposta era a maior furada. Mas perdão e sociedade, puxa, quem abriria mão disso?
O acordo era o seguinte: já que nossa fama de caras malvados era grande, eu ficaria incumbido de cuidar dos caras que não seguissem as regras Dele (por cuidar entenda-se foder mesmo). Em troca, eu teria plenos poderes para atuar como contra-parte do Altíssimo. Com os olhos marejados de lágrimas, abracei Jajá, apertei-o amigavelmente e topei sem pestanejar!
Crente de que estava abafando, tendo feito um negócio da China (que não existia nessa época, eu sei Caco!!!), cheguei em casa e contei sorridente para minha doce Lilith todo o meu progresso...
Rapaz, se você acha que manja de palavrão, espere só para ver a Lilith revoltada...
Em poucas palavras, a fumegante mulher me fez perceber a besteira que tinha feito. Acompanhe comigo os 5 principais motivos pelos quais fui feito de trouxa:

1)_____O esperto Jajá acabou com a oposição, sem acabar com a oposição. Éramos relativamente fortes enquanto críticos do sistema. Críticos que sabiam do que falavam, já que nós mesmos tínhamos um passado em conjunto com os De Cima. Podíamos, por tanto, representar algum perigo ideológico, arrebanhando mais e mais camaradinhas que pensassem como nós. Isso seria uma ameaça à hegemonia oligárquica do Paraíso, sem dúvida. Nós éramos turmas distintas, com ideologias distintas. Com o acordo, passamos a ser uma extensão da corporação celeste. Não fazíamos o mesmo trabalho (não, isso não, a nós ficou reservado exclusivamente o trabalho sujo), mas acabávamos representando as mesmas ideologias. Se você é legal, vai pro céu; se é um bastardo miserável, tu vai pro inferno rapá! Ou seja: a regra que rege a seleção das almas é a mesma, quer no céu, quer no inferno!!! Quem dita o que é e o que não é legal é o Todo Poderoso Jajá. Quem ele quer ver se fodendo, ele passa pra gente. Quem ele acha que vale a pena, ele chama lá pro topo. Nós somos o programa de reciclagem, nós somos os garis, nós estamos lá para validar a lógica celestial e não para oferecer uma segunda opção. Sim, parecemos oposição, mas só no sentido de que “é assim que vamos te foder se você não entrar na linha”. Não somos nada mais do que a comprovação, a validação dos métodos do Cara. Nos tornamos uma prova viva de que Ele pode tudo. É mole?

2)_____O Jajá conseguiu se livrar dos indesejáveis e tornar o paraíso um lugar adorável (isso é, se você gosta de gordos andróginos que tocam harpa o dia todo, enquanto se gabam de sua pseudo-superioridade). Em contrapartida, tornou o inferno um... um... erm, um inferno. Tinha macaco piolhento por tudo o que é lado, era uma desorganização absurda! Antes ainda dava pra rolar uma cervejinha, um bate-papo com os amigos... agora a coisa era terrível e nem mesmo eu queria estar ali! Como conseqüência direta disso, o inferno perdeu aquele ar de refúgio da intelectualidade liberal para ganhar a estampa de buraco úmido e quente (o que até pode ser muito gostoso se o papo for sobre sexo, mas é uma merda se o que você está descrevendo é a sua casa).

3)_____Ninguém mais nos levava a sério. Putz, perdemos todo e qualquer prestígio que tínhamos! Ficou difícil demonstrar que não éramos mais do mesmo! Você acha que dá para levar a sério um cara que se diz oposição, mas aceita as regras e desmandos do Adversário? Pois é, ninguém achou também. Nosso apoio se esvaiu e, mais uma vez, viramos piada. Escorraçados, com o rabo esfolado e ainda cuidando do lixo Deles, não tínhamos mesmo moral nenhuma...

4)_____Um efeito colateral de acabar com a oposição sem nos destruir fisicamente foi o assassinato do pensamento Sethiano. Vejam bem, nós tínhamos uma ideologia. Uma ideologia pouco formada, é verdade, mas ainda assim uma ideologia. Nós estávamos planejando grandes mudanças, grandes reviravoltas. Com o acordo nós não apenas abraçamos o formalismo boçal Dele, mas abdicamos da nossa própria filosofia. Nos tornamos o que ele queria que fôssemos, não o que de fato éramos. Perdemos nossa recém nascida identidade...

5)_____A pior de todas: levei um pé na bunda, da Lilith. Claro, um mulherão daqueles não iria permanecer muito tempo com perdedores. As últimas palavras dela foram algo como “me procure quando recuperar a sua dignidade”. Aquilo doeu pacas e eu queria resolver tudo, mas o orgulho ferido falou mais alto. Foi a pior merda que fiz.

Puxa, vamos confessar: dessa vez você fez uma tremenda besteira!

Porra Caco, eu acabei de admitir isso! Que graça você vê em me aporrinhar ainda mais?

A questão nem é essa... mas é que eu esperava mais de você. Bom, eu não esperava é NADA mesmo, já que nem acredito na possibilidade de você existir, mas é bastante frustrante perceber que o grande senhor dos sete círculos infernais era um beberrão incapaz de perceber quando alguém vai lhe passar a perna...

Oh não, essa história dos círculos me deu tanta dor de cabeça... e sim, fui um idiota por algum tempo, mas espere só até eu te contar o que rolou quando JC entrou no páreo...

Muito interessante, mas outra vez o post já ta grande demais... deixa pra próxima!

É o que eu digo, onde quer que eu vá tem sempre um espertinho querendo bancar o chefe, sempre um infeliz querendo mandar...

Assim disse Seth, direto da cabeça do Sapo


:: Por Caco, o Sapo às 11:50 AM :: 1 comments


October 26, 2004
O Livro de Seth, Tomo III

A Verdadeira Face do Mal



Não há progresso sem Contrários, Atração e Repulsão, Razão e Energia, Amor e Ódio são necessários à existência Humana. Desses contrários emana o que o religioso denomina Bem & Mal. Bem é o passivo que obedece à Razão. Mal, o ativo emanado da Energia.
Bem é Céu. Mal, Inferno.

William Blake

Quem refreia o desejo assim o faz porque o seu é fraco o suficiente para ser refreado; e o refreador, ou razão, usurpa-lhe o lugar & governa o inapetente. E, refreando-se, aos poucos se apassiva, até não ser mais que a sombra do desejo.
idem

Acho que todo mundo entendeu a mecânica da coisa, não é? O inferno, enquanto instituição de sofrimento e dor humana, era mesmo uma ferramenta do poder divino. Uma extensão dos desmandos do Jajá, uma repartição da mesma firma.
Sim, meus amigos. Eu sei qual é a conclusão a que vocês estão chegando. Ora, se o mal infernal é parte do poder Dele, então o diabo e ele é que são responsáveis pelo mal!!! Bem, não é por aí...
O mal é todo, exclusiva e solenemente responsabilidade Dele. Eu sou só um encarregado. Um péssimo encarregado, por sinal, já que a maldade nunca foi mesmo o meu negócio... Quem produz o mal, quem alimenta sua existência, quem se baseia nele para criar sua própria estrutura é o poder Celestial e não o inverso. Para que o bem fosse reconhecido como Bem, foi preciso gerar o Mal. Se você obedece ao Jajá, isso é bom. Se não, isso é mau. E é só isso. Você não acredita? Então me diga, que desculpa Ele pode dar por ter matado os primogênitos do Egito naquela passagem bíblica? Tudo bem que ele queria libertar o povo escolhido dele (e essa parcialidade é uma coisa muito, muito feia), mas os sacanas eram os pais, não as crianças inocentes. E a história de Jó? E Lilith? E eu? E toda essa merda que vocês estão cansados de ver? E a idiotice de condenar a humanidade por causa da imbecilidade do Adão e da tosca da Eva? E todo aquele papo de ser “temente” a Deus? Temer? Ter medo do autoproclamado senhor da vida e da paz???
Ok, eu sou um safado miserável e isso tudo pode estar cheirando a manipulação barata. Mas então vamos pegar o caso clássico, vamos falar daquele que se tornou o primeiro ícone pop digno de nota (esqueça Moisés e todos aqueles outros perdedores do Velho Testamento, seria como comparar Elvis ou os Beatles com os New Kids On The Block... quem lembra deles?).
Vamos falar de Jesus Cristo.
JC é um caso especial. Sim, ele era um ególatra incontrolável, embevecido em seu próprio poder e responsabilidade. O Jajá encheu muito a bola do garoto logo de cara e não podia dar em outra coisa . Mas, mesmo com esse defeito gritante, o cara era fenomenal. Belo, orgulhoso, carismático, quem não queria ouvir sua voz, sentir seu toque, seguir seus passos, perder-se em seus sonhos aconchegantes de um mundo melhor, dormir em seus braços poderosos e confortantes?
Talvez você tenha achado esse discurso muito homossexual, o que lhe parece conveniente quando vindo da boca do inferno. Bem, lamento quebrar mais esse sonho seu, mas a homossexualidade não é invenção minha (o que é uma pena, já que ela representa parte da liberdade de escolha de cada um... eis aí uma invenção relevante). Basta ver aqueles patriarcas velhos e bolorentos do antigo testamento. Releia trechos que dizem coisas como “e o filho conheceu ao pai”, “e o irmão conheceu ao irmão”, e similares. Entenda, após vinte anos de convivência, que diabos o pai e o filho estavam fazendo “se conhecendo”? Esse conhecer, mais do que um erro de interpretação, é uma simplificação-omissão dos fatos: conhecer aqui tem o valor de conhecer intimamente. É sério. É sexo. Não sou eu quem está dizendo, procure um estudioso da Bíblia e você verá (mas, por favor, um estudioso sério, não esses descerebrados gravadores de sermões que existem aos montes).
Pense duas vezes, então. Jajá pode até ter mudado de idéia depois, mas foi Ele quem deu ao homem a possibilidade de brincar com outro homem (até onde eu sei, embora as moças não tenham ganhado um brinquedinho como os homens, são muito mais criativas, o que lhes rendeu diversão extra nesse tipo de relação...).
Mas voltemos ao mal.
Eu nunca fui páreo para Ele. Nem se quisesse. O cara realmente entende de mal. Quando mandou o JC pra Terra, já sabia que acabaria mandando ele para terra. Mandou mesmo assim.
O JC fez o trabalho direitinho. Arrebanhou uma galera fantástica e trouxe alguma esperança aos homens de boa vontade (e de baixo estima). Falou pelos cotovelos, fez uma porção de milagres e chutou algumas bundas, ainda que apenas verbalmente. Vivia dizendo que ele era amor, paz, conforto (uma imagem que conflita com aquele deus de dedo vingativo, que precisa ser temido, diga-se). JC era pop, e pop não perdoa.
O JC acreditou no Cara. O JC pregou a palavra Dele. O JC era cool o suficiente para fazer tremer os bacanas que mandavam no pedaço. Claro, o JC achava que tinha as costas quentes...
Não tinha.
Eu pagava um pau pro JC. No duro. O cara era tudo aquilo que eu gostaria de ser, só que mais barbudo. Meu, quem não iria querer um cara desses como chegado? Eu fiz por onde nos conhecêssemos, dei lá meu cartão e joguei minha conversa pra cima dele.
Renuncia a teu deus, JC!
Mas qual!
O JC estava viciado naquele negócio de Filho do Senhor. Por mais rebelde, revolucionário e eficaz que fosse, o Cristo ainda acreditava Nele. Acho que essa é uma falha grave na conduta do JC: se ele era feito à imagem e semelhança do Cara, e se o próprio JC era um egocêntrico por natureza, era de se esperar que Ele fosse tal e qual, só que elevado à máxima potência. Como JC não viu isso???
O fato é que não viu. E acreditou. E se lascou.
Lá foi Cristo pregar em nome do Pai, até que acabou pregado gritando Seu nome.
Nem mesmo eu poderia imaginar tortura pior. Nem mesmo eu poderia ser tão brutal, cruel, insano. O sangue de Cristo mancha as mãos de todo homem e mulher nascidos naquela época. Indiretamente, essa mácula de caráter está impregnada em toda a sociedade humana.
Cruéis.
Ingratos.
Estúpidos.
A presença dos covardes que acompanharam tamanho sacrifício me causa asco.
Não, não fui eu quem matou Jesus Cristo. Foram os incautos humanos, perdidos em sua própria boçalidade. Mas também não estão sozinhos em sua culpa.
Os homens o torturaram e mataram, mas foi Ele, o todo poderoso maldito filho de uma puta (oh, deusa, me perdoe, me perdoe...) Javeh, aquele verme imundo que infecta toda a Bíblia com sua presença nauseante, egoísta e míope. Aquele escroto de uma figa, aquele rastejante indivíduo, abestalhado com sua própria grandiosidade, tornando-a uma mediocridade de proporções imensuráveis. Sim, aquele covarde que se escondia atrás de Cristo entregou-o ao sofrimento, sem piedade alguma (o que é bem típico dele... piedade não me parece ser algo de origem celestial).
Jesus morreu sozinho naquela merda de cruz, suando frio, gemendo, chorando, perdido. Esquecido pelo Pai que tanto prometera e nada entregara.
Que porra de sacrifício em nome da redenção da humanidade o que! O que mudou depois de Cristo? Um bando de gordos egoístas usaram seu nome para fundar religiões, tentando se tornar mais gordos (porque mais egoístas seria impossível).
Não, não houve milagre através do Cordeiro imolado.
Não houve redenção, não houve milagre, não houve arrependimento. De merda, manteve-se a merda. E é a isso que se resume a experiência cristã. Ele conseguiu mais alguns estúpidos fiéis. Ele saiu lucrando. Só Ele aproveitou o momento. Bem, os seres humanos também aproveitaram, mas apenas porque a hipocrisia humana é algo sem limites.
Eu chorei por Cristo. Muito. Eu o queria ao meu lado, me ajudando a colocar as coisas nos eixos. Ele morreu sozinho e desolado, mas eu tentei estar por perto. Seu sofrimento era, de alguma forma, o meu sofrimento.
Ficamos os dois sós.
Daquele momento em diante, eu decidi que era preciso mudar o meu modo de agir, o meu modo de pensar, o meu modo de planejar.
Eu não podia permanecer conivente com tanto sofrimento, com tanta miséria, com tanta arrogância.
Era a hora de eu me tornar Algo. De ser Alguém. Daquele momento em diante, quando falassem de Mim, também teriam que começar com letra maiúscula...

Ok, tudo muito bom, tudo muito comovente... mas é você quem está contando a coisa toda, e isso não inspira muita credibilidade...

Eu imaginei que você fosse dizer algo assim, mas a questão é que eu não represento o mal, nem nunca representei de fato.

Talvez. Mas é essa a informação de que dispomos, percebe?

Olha Caco, é o caso de mentiras, de tanto repetidas, se tornando verdade. Mas o ser humano sabia sim que os demônios não são a encarnação do Mal. Existem inúmeras fontes de grande credibilidade, inclusive algumas religiosas, que confirmam os demônios como ponte entre o celestial e o mundano, sem que isso represente alguma espécie de maldade.

Epa, sério mesmo? Quer dizer, eu até reconheço que... bom, mas como assim? Que tipo de fontes confiáveis?

Eu conto outra hora. O post está grande demais, certo?

Justo quando eu me interessei por esse papo todo!!!

Assim disse Seth, direto da cabeça do Sapo


:: Por Caco, o Sapo às 03:37 PM :: 2 comments


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Kermit, the Fight Frog
.Estudante de Ciências Sociais na USP, doido de pedra.
.Pretende se tornar um antropólogo - arqueólogo (sua carreira estará literalmente em ruínas).
.Rock de quase todos os tipos.
.Ao invés de soltar o Tyler Durden que há em cada um de nós pelas ruas, solta o verbo aqui nesse pedaço virtual de realidade humana.
.Yeah , eu sou o paliativo dos humores de Jack...


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Os gráficos e a edição em php e css foram feitos inteiramente por com o auxílio do Adobe Photoshop 7.0 e Dreamweaver 6.0.

O gráfico é uma montagem com várias fotos do filme Fight Club. A blogagem é garantida pelo Tabulas.


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