Entries for January, 2006

January 13, 2006
Blógo-lhe


 Caro senhor, nestas mal traçadas linhas (de comando), imponho um pouco das minhas vontades, ainda que não lhe toquem o coração (pós-moderno de merda por natureza, arrogante e evasivo por sua própria opção).
Se te destino estes zero-uns-zero-uns com meus dedos nervosos, jogando impulsos pela rede (de esgotos, ainda que virtuais), absolutamente cônscio da ineficiência do meu protesto, não é exatamente para pedir-lhe medidas urgentes.
Apenas não me calo. É, outrossim, a vontade soberana de escarrar-lhe na cara oculta e marota.
Não sei bem quais são seus intentos e, hoje, nem mesmo me preocupo em saber do que se trata toda essa piada mal e parcamente elaborada. Se lhe agrada rir assim das nossas caras angustiadas ou se você é apenas inapto para lidar com o que supostamente criou, tanto faz quais são seus pecados (sim, meu senhor, é em sua presença e na falta dela que eu encontro os pecados mais nefastos, porque não são meras travessuras conscientes: são hecatombes norteadas pela dita suprema consciência, o que agrava tudo).
Acho o fim da picada o modo como essa “espécie escolhida” vive aqui. Parte disso é obra sua, que não se preocupou em decidir direito quem merecia, de fato, ser a raça inteligente. Pense nos cachorros, por exemplo. Tão mais amáveis, tão mais justos.
Que não fossem os cachorros. Que você não se desse ao trabalho de conferir pessoalmente os méritos do que você mesmo inspirou.
Ainda assim, as opções eram muitas, mas você simplesmente fez a escolha mais estúpida.
Os porcos, que revolvem a própria merda com tamanha naturalidade, seriam mais dignos.
Os escorpiões, mais confiáveis.
A companhia dos  vermes, mais aprazível.
Tamanha inteligência desperdiçada com animal desqualificável.
Nem ao menos bonito, se pensarmos bem. As curvas femininas, a virilidade masculina, essas coisas tão atraentes são muito mais uma imagem idealizada do que um cenário real.
Oras, faça-me o favor!
Se podia ter decidido qualquer coisa, de qualquer modo, ao seu bel prazer, como é que desperdiçou a oportunidade com tanta mediocridade?
Caralho, não era você mesmo que arrotava onisciência? Como é que não percebeu a merda que isso tudo ia dar?
Morrem milhares dos seus “protegidos”, todos os dias.
De fome, de frio, de medo.
De doenças que nós nunca imaginamos que existissem.
Por armas que nós inventamos, por armas que você inventou.
Mas nem comece com essa covardia  de pregar a Sabedoria Secreta, o destino maravilhoso que você traçou pelo nosso bem, inefável para os  parcos recursos humanos. Essa baboseira megalomaníaca de dizer que há um propósito para tudo neste mundo, traçado por você, com carinho e inteligência.
O que você chama de Plano Superior, eu chamo de sadismo repugnante.
Não estamos aprendendo nada aqui, a não ser a verdade óbvia de que não estávamos prontos pra mandar no mundo.
Tendo em vista que fomos criados à sua imagem e semelhança, fica até meio evidente o serviço tosco.
Como nós, você foi capaz de gerar as coisas mais belas e inacreditáveis, só para tropeçar no ego logo adiante e destruir, com requintes de tortura, qualquer beleza que tenha surgido de seus atos.
Crie vergonha nessa cara, meu senhor!
Olhe só a latrina em que transformamos tudo à nossa volta. Olhe bem, porque fomos terríveis, criminosos, mas contamos com a sua conivência igualmente vexatória.
Que me diz de dar um basta nisso? Que diabos, às favas com seu plano inefável! Vamos parar de agir com soberbia e tratemos de fazer jus, você e nós, às dádivas recebidas.
Parece-me um plano bem mais simples e bem mais justo.
Como disse antes, não espero uma resposta. Você nunca foi direto em coisa alguma, não espero que o faça justo agora. No máximo, virá com aquela besteira apelativa de “falar por sinais”, uma tolice que só faz alimentar a  crendice e superstição de uma população já bastante confusa.
Pra variar, não me diga nada, mesmo.
Simplesmente, FAÇA.
Dou-lhe a minha palavra de que, crie o senhor vergonha na cara ou não, a minha parte eu farei.
Se, no seu julgamento, é disso que o nosso mundo precisa, honestamente, já não me interessa.
Que cada um arque com as conseqüências de seus atos. Dos meus, não passarei impune.

E o senhor, terá coragem de arcar com os seus?

                                               
 

 

:: Por Caco, o Sapo às 04:57 PM :: 3 comments


January 18, 2006
Biópsia

Estou ilhado em meu próprio idioma.

Não falo o português.

Não falo francês.

Não falo alemão, latim, italiano.

Não falo.

Não penso em persa, egípcio, sânscrito.

Penso numa linguagem única, particular, muitas vezes indecifrável até para mim.

Busco adaptar e traduzir esta língua alienígena, esta seqüência disforme de signos e significados.

Sou antropólogo de mim mesmo. Estudando pacientemente cada nova nuance que descubro nesta sociedade sempre em construção, que vai constituindo o que me acostumei (ou me acostumaram, ou os dois) chamar de “eu”.

Vou para frente e para trás, para os 50 e para os 4 anos. Para além.

Transito livremente pelo tempo que existo, sem que isso implique em conhecimento (e reconhecimento).

Não concluo nada. Não me é permitido nem tentar.

Posso apenas observar, admirado. E é o que faço, cada vez que viajo para dentro de mim. Inconformado com a imensidão inexplorada, com este universo paralelo sem regras claras ou compreensíveis.

Vou dos sonhos infantis, brilhando nas paredes descascadas da memória, aos desejos mórbidos, escondidos pelos cantos recalcados desta psique fragmentada. Observo tudo com o mesmo interesse, porque cada fagulha nova, boa ou ruim, tenha lá sido influenciada por quais sejam as fontes, nasceu do mesmo âmago. Vem do centro deste mesmo universo. Feito com a mesma matéria cósmica que tudo o mais aqui dentro.

Cada boa ação vem filtrada pelas teias que cresceram soltas nesta consciência levemente organizada. Quase todo rancor acaba preso nestes fios leves, mas pegajosos. Hábeis na sua tarefa de agarrar vorazmente cada idéia não aprovada pelo rigoroso padrão de qualidade. O aracnídeo fantasma caminha seguro no vento e inocula seu veneno de moralidade em cada vítima, consumindo seus fluidos, até que cada pensamento menos ortodoxo torne-se uma casca vazia, uma paródia estúpida de si mesma. Sem qualquer força, é verdade, mas os cadáveres permanecem lá, fixos em seus casulos nebulosos, uma vaga lembrança de ímpetos idos.

É angustiante.

Tanto para ser explorado aqui fora, tanto para ser compreendido aqui dentro.

Até porquê, no final das contas, só se pode esmiuçar aquilo que carregamos para o interior de nossas vivências.

Às vezes cansa.

Cansa um bocado.

Cansa ser tantas coisas, alcançar tantos lugares, preencher tanto espaço, e ainda assim ser um pequeno observador no meio de si mesmo.

Cansa esforçar-se para manter a integridade.

A integridade... Como é possível falar em unidade quando tantas coisas correm velozes, independentes, no seu próprio ritmo e direção?

Quantos ecos meus, reverberando eternamente, ouço quando acordo?

Quando vou me deitar, pouco antes dos sonhos virem (eles mesmos novas máscaras coloridas para um mesmo rosto), não são minhas vozes que vêm suplicar uma trégua, uma chance de escapar dessa ilusão de individualidade?

Não somos unidade, somos coletividades ambulantes. Convivendo com tantas versões nossas, algumas adoráveis, algumas conhecidas. Outras, tão diferentes do que achamos ser nossos limites que, tivéssemos a oportunidade de esbarrarmos com elas nas ruas, ignoraríamos como qualquer estranho com quem já tenhamos nos deparado.

Não fujo a regra.

Na verdade, já suspeitei que a confirmo e expando a sua abrangência.

Mas a língua que explora a própria boca teima em sentir gigantes as pequenas cascas de pão que se espremem entre os dentes...

Somos todos grandes, imensos em nossa própria perspectiva. Maiores do que tudo. E é assim mesmo, só que é assim milhões e milhões de vezes, com cada ser humano em especial (o que equivale a dizer que ser especial é algo absolutamente normal, se me permitem a paradoxal afirmação).

E o papel é um campo muito pequeno para expor-me, ainda que seja só uma fração de um quase nada de vida.

E as palavras são absurdamente estéreis, ou profundamente usadas, tornando-se ferramentas quase cegas pelo uso contínuo.

A tese, antes mesmo de propiciar qualquer síntese, morre pela leviandade da tentativa de fazê-la nascer em solo tão cru. O experimento frustrado pela falta de recursos. O primata olhando o cogumelo atômico, espremendo os olhos ávidos, ainda que horrorizados, na vã esperança de poder contar aos seus o que diabos ele viu acontecer.

Se teimo ainda em expor minha sociedade interna através de um punhado de frases é muito mais por desespero do que por convicção.

Não há chances de conseguir traduzir tudo o que tenho arquivado. O trabalho de explicar minha vida (minhas vidas?) levaria, ironicamente, muito mais do que o triplo de minha existência.

Não porque seja uma vida cheia de acontecimentos fantásticos aqui, do lado de fora (isso, a história sempre conseguiu rascunhar, com seu implacável poder de síntese).

São as supernovas, os quasares, as espirais de sentimentos primitivos, o olho oculto, camuflado no labirinto gelatinoso do meu cérebro, as infinitas portas que se abrem para infinitos mundos (ou para um único e pequeno quarto, sempre a meia luz), as infindáveis pessoas que eu fui, que eu serei, que eu poderia ser, as que eu desejaria ser e as que eu jamais toleraria, essa multidão sem nome e que ainda assim faz parte de mim, tudo o que vem aqui guardado e que muito provavelmente jamais será conhecido, é exatamente isso o que eu nunca poderei expressar a contento.

Talvez, nem sentir.

Porque o movimento não para. Cada tentáculo infla, expande, se rasga ao meio, se multiplica, indo se enroscar em novos e improváveis caminhos.

Castigo ao homem da ciência, até mesmo a promessa da investigação acurada de uma autópsia se deforma em desejo falido.

Porque a magia da morte não traz consigo explicação alguma.

O mágico sai do palco, dá boa noite e se retira. E, sem o mágico, o palco é só um lugar vazio, quieto.

Que pode dizer, até mesmo o melhor dos investigadores, sobre um palco vazio? Aqui e ali, encontra alguma pista de como pode ter sido o grande show, mas em nada isto se compara com a experiência de ter assistido tudo na primeira fila, participado, batido palmas com o resto de platéia, encantado.

E toda a mágica ali operada desaparece sem deixar qualquer vestígio físico.

Só é real por se instalar, sempre de modo misterioso, em novos corpos, novas mentes, novos universos. Sem que se entenda seu poder, sem que se entenda como se fez.

Os tentáculos sobem e descem, se esticam num espreguiçar suave.

E se expandem, alcançando rumos sempre imprevisíveis...

 

                                       


:: Por Caco, o Sapo às 10:30 AM :: 2 comments


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