Entries for February, 2007

February 1, 2007
Superficialmente profundo (ou profundamente superficial)

Funciona assim: caso você queira ser ouvido, pegue uma questão polêmica qualquer e faça uma análise absolutamente superficial do tema, com uma “opinião própria de mim mesmo” tão extravagante e ridícula que seja impossível alguém concordar (ou entender o que você queria dizer). É como analisar a cor da camiseta do homem-bomba no Iraque, comentando que as cores das listras não combinam com os tons carne-carbonizada do cenário geral. Ou, por outra, pegue um tema completamente idiota e sem profundidade e faça uma análise complexa, escrevendo com seriedade e certa aflição sobre, digamos, o BBB Para Maiores, programa que passa nas madrugadas de quarta na tv Globo. É a receita do sucesso!

Entenda: o público médio não consegue captar mais do que a superfície dos temas relevantes; e, mesmo assim, acha isso um saco. Já os temas estúpidos, como o enredo da novela Páginas da Vida (eu não acredito que usei o termo “enredo” para definir a “trama” dessa novela; na verdade, qualquer termo usado pra definir aquilo precisa vir entre aspas, salvo “bosta” – a perfeita definição, simples e direta), são absorvidos porque entorpecem qualquer neurônio resistente e teimoso que ainda exista por aí. É o típico tema que vai do nada pro lugar nenhum, o que favorece o debate de quem não tem nada pra dizer, de qualquer forma. Numa comparação matemática, o povo olha pra Fórmula de Báscara e diz que é um troço muito chato que se aprende para tirar nota na escola. “2+2=4”, porém, é muito interessante e rende ótimos papos, inclusive debates mega filosóficos do tipo “por que a conta não dá 5?”.

Como eu sou distraído e não consegui ver a cor da camisa do homem-bomba antes de ele explodir na frente daquela escolinha (nem lembro mais da Fórmula do “Máscara”), resta-me a dura tarefa de falar do BBB Para Maiores.

Confesso que o formato do programa me interessa (não o Para Maiores, mas o BBB no geral). Eu poderia envernizar o debate dizendo que meu interesse é puramente científico, do tipo “análise sociológica do comportamento humano em ambientes isolados” (acredite, em rodas intelectuais esse papo cola; isso porque intelectuais não fazem roda, esses caras batendo papo com cara de conteúdo só querem fumar uma ervinha e chamar Jobim de Deus). Mas não vamos mentir, certo? Observar a vida alheia é um prazer que a humanidade desfruta desde antes da vizinha subir no muro pra ver o casal brigando na sala de estar. O formato é tão simples e tão banal, trabalha tão diretamente com o mais primitivo que é impossível não ser sucesso. Quem não quer ver Alemão com Siri, nem que seja pra esquecer as contas atrasadas e a esposa dormindo profundamente, provavelmente sonhando com o leiteiro, ou com os filhos que você mal vê, ou com a péssima performance que você teve depois de seis meses sem sexo nessa casa que precisa de uma pintura nova.

Aliás, nem precisa ser Siri e Alemão. Pode ser Manuela e Bruno, Domini e Grazi, Bial e Pink, loira genérica e garoto esperto default.

A gente só quer ver o banal da vida alheia pra esquecer o banal da nossa vida, oras!

Eu preferia o No Limite (é sempre melhor ver gente se fodendo bem mais do que você, ainda mais na tv: é a vingança dos que vivem para o final de semana). Mas tivemos que trocar as duras provas na selva pelas duras provas de roupas, na indecisão do que vestir para a festinha animada de todo o dia. Tudo bem, é a vida alheia, ainda dá algum barato. Mas o torpor já não é mais o mesmo: vamos precisar de maiores doses dessa droga.

É aqui que entra o BBB Para Maiores, suponho.

Para ver você só precisa esperar chegar a quarta, ver a novela Páginas (em branco) da Vida, ver o capítulo do BBB do dia, ver o futebol do time de várzea que goleia o time famoso, ver a série brasileira Amazônia (que se preocupa muito mais com quem Galvez está trepando essa semana do que com a história do Acre), ver o Jornal Nacional (não é que precise veeeeeeeeeeeer mesmo, pode ir na Internet visitar o site da Globo enquanto isso, pra saber as fofocas), ver a série 24 Horas para, enfim, desfrutar do BBB Para Maiores.

No programa, um apresentador chato e agressivo fala com uma platéia minúscula e muito mal ensaiada, com o eliminado da semana e com o... ursinho.

Desculpe, acho que não ouvi bem: ursinho?

Isso mesmo, o Ursinho.

Desses que animam liquidação em açougues de bairro.

Além de fazer perguntas completamente ultrajantes (do tipo “dá pra fazer sexo lá dentro? Tem camisinha lá? Por que você tomava banho pelado?”), o “apresentador” mostra cenas do programa que, supostamente, são para maiores: os participantes fazendo bunda-lelê, alguém vomitando no banheiro por ter bebido muito mais do que o pior carro a álcool, alguém insinuando que está duro e não é por falta de grana. É tudo ultrajante, mas nem é tanto pelo conteúdo sexual. É, sim, pela falta de qualquer conteúdo. Pela falta do que mostrar, pela falta de educação do apresentador, pela falta de criatividade. O momento mais emocionante foi aquele em que o ursinho se moveu de forma inesperada. Pensei: “vai tirar um cartaz anunciando a promoção da chuleta, quase de graça”.

Que nada.

A roupa de ursinho estava, digamos, entrando nas partes indevidas e ele arrumou a coisa toda com um rápido (ainda que nada discreto) puxão.

Nem falemos dos comentários dos telespectadores, mandando na madrugada mensagens de texto em alguma língua que eu preferia ver morta. Não é português o que escrevem, assim como não é produto de uma mente estável o que dizem. Resta saber se a incoerência dos “textos” é produto do sono ou se do conteúdo pulverizador de neurônios que o programa exibe.

Alguém, um dia, vai me explicar o motivo de um ursinho assim estar num programa “para maiores”.

Alguém um dia vai me explicar o que é que os maiores estão fazendo numa hora dessas, vendo algo assim. Ah, lembrei: tudo pelo prazer de esquecer a nossa própria vidinha breve e vulgar.

O chato, porém, reside no fato de que fiquei sem saber se Siri ficou ou não com o Alemão... mal posso esperar pelo episódio de hoje!

E fica a reflexão (pois todo texto deve ter uma moral no final, tão inteligente quanto presunçosa):

Terei eu escrito superficialmente sobre um tema relevante ou debatido demoradamente uma questão banal? Nós voltaremos com a resposta logo depois dos nossos comerciais.


:: Por Caco, o Sapo às 02:04 PM :: 1 comments


February 13, 2007
"A Reforma da Natureza"ou "anima vile"

Portas- malas = toda e qualquer porta de banco com aquele detector de metais inventado por um imbecil com disfunção erétil.

No que me concerne, o aviso da fila preferencial ficaria muito mais interessante se fosse mais provocativo:

Fila preferencial para crianças gestantes, mulheres de colo e portadores de idosos.

Testes do BBB deveriam ser usados para registrar e qualificar o povo brasileiro. Todo mundo que se parecesse com Airton, Fernando ou outro bastardinho genérico dali deveria ser qualificado como “sei-lá-que-animal-é-esse”, não como ser humano. Quem se parecer com o Cobra, execução sumária, por favor. E lembrem-se de cobrar a bala da família.


Todo político eleito deveria andar por aí com uma roupa cheia de eletrodos. O povão deveria carregar uma maquininha com botões que controlassem a voltagem de descargas elétricas que as tais roupetas dariam em seu portador. Mesmo que aqueles filhos da puta não andassem na linha, teríamos o sadismo vindicador.


Mentir deveria doer. De preferência, nos órgãos reprodutores.


Um botão on/off deveria ser instalado na nossa cabeça, para podermos ter folga dos nossos sentimentos. Por sinal, deveríamos poder tirar férias de nós mesmos, uma vez a cada dois anos, pelo menos.


Burrice deveria dar nó na língua e sono.
Bom, talvez sono não.
Iríamos  acabar tropeçando em centenas de idiotas tombados pelas ruas.


Ler um bom livro por mês deveria ser lei, com direito a multa para os desobedientes.


O lixo que se joga no chão deveria se teletransportar para a cama do porco que faz isso. Catarrada no chão deveria ser como bumerangue e voltar na testa do infeliz.


A cara de quem vai ao banheiro e não lava as mãos deveria ficar verde.
Com bolinhas roxas fosforecentes.


Pizza e guaraná deveriam emagrecer.


Dormir deveria ser um exercício tonificante, o mais recomendado pelos médicos.


Morrer deveria ser opcional de fábrica.


Dois mais dois deveriam ser quarto e ninguém mais deveria fazer piada, reflexão ou análise maluca sobre uma besteira dessas.


Todo mundo deveria gostar (melhor, amar) tudo o que eu escrevo.

O que eu escrevo deveria ser bom.


Aposto como todo mundo está com saudades da Emília e sua "noventaequatropéia" agora...


 

Eu deveria ser o projeto brilhante de Jack

 

 

 

 

 

 

 

 


:: Por Caco, o Sapo às 06:18 PM :: 1 comments


February 24, 2007
Oferta do Dia

Nada espera.

Siga o compasso ou fique para trás.

Realize ou desapareça.

Produza ou apodreça.

Não há tempo para descanso. Para recuperar o fôlego. Para validar o esforço, para saborear um segundo de inexistência.

Confira o relógio.

Estufe o peito, enfrente o que vier.

Sorria para a desgraça.

Abrace a desavença como a uma boa amiga.

Ignore o sofrimento alheio.

Ignore o sofrimento.

Sofra.

Ignore.

Chute alguns adversários.

Chute-os na virilha.

Corra para que não te alcancem.

Aproveite-se de seus amigos.

Deturpe as boas ações em favor próprio.

Tire proveito.

Feche os olhos para os abusos.

Engula sem mastigar esta sociedade indigesta.

Regurgite seus sonhos, aspirações, princípios.

Marche!

Assine na linha pontilhada.

Aproveite esta oferta.

É por tempo limitado.

Não chore. Chorar é para os fracos.

Não delire. Sonhar é para os tolos.

Recomponha-se!

Ninguém espera.

Não espere.

Siga o compasso ou fique para trás.

Nada espera.

 

 

Não posso crer que sinto aromas, sabores, texturas, emoções, cores, apenas para marchar como um autômato débil e sem graça.

Recuso-me terminantemente a destruir quem sou para dissolver-me na sopa da indiferença, da superficialidade, dos degenerados desejos de nada.

Espere.

Chore.

Saboreie!

Crie seu compasso e deixe o ritmo viciado para trás.

Reinvente-se.

Mastigue cada nova informação, triture cada modismo, cuspa fora o que não presta.

Fortaleça-se em seus princípios.

Ofereça sua ajuda.

Tome uma posição.

Seja coerente com ela.

Aproveite a sua vida.

É por tempo limitado.

 

 


:: Por Caco, o Sapo às 01:59 AM :: 3 comments


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Kermit, the Fight Frog
.Estudante de Ciências Sociais na USP, doido de pedra.
.Pretende se tornar um antropólogo - arqueólogo (sua carreira estará literalmente em ruínas).
.Rock de quase todos os tipos.
.Ao invés de soltar o Tyler Durden que há em cada um de nós pelas ruas, solta o verbo aqui nesse pedaço virtual de realidade humana.
.Yeah , eu sou o paliativo dos humores de Jack...


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Way out in the water, see it swimming
With your feet on the air and your head on the ground
Try this trick and spin it, yeah
Your head will collapse if there's nothing in it
And you'll ask yourself Where is my mind?
But God licks your face - just like your dog
Succulent white, secrete revenge, god gives right for you & your laws,
you kill & dine, in cold sublime
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Warning!
If you are reading this then this warning is for you. Every word you read of this useless fine print is another second off your life. Don't you have other things to do? Is your life so empty that you honestly can't think of a better way to spend these moments? Or are you so impressed with authority that you give respect and credence to all who claim it? Do you read everything you're supposed to read? Do you think everything you are supposed to think? Buy what you're told you should want? Get out of your apartment. Meet a member of the opposite sex. Stop the excessive shopping and masturbation. Quit your job. Start a fight. Prove you're alive. If you do'nt claim your humanity you will become statistic. You've been warned...
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