| February 6, 2008 |
| Virus Vault O desespero escorre nas gotas de suor, pelas costas, testa, braços. Os olhos vidrados, viciados, ardendo fulminantes no vazio explícito da praticidade da existência (morrer e viver são meros resultados de um jogo trivial). Os segundos marcham em perfeita ordem, sem intervalo, sem descanso. Neurônios adrenalinados, sinapses incapazes de concluir formas antes da chegada de novos dados. A todo instante, a todo o momento, tudo, para todos, de todos. A vida vira hipertexto. O hipertexto torna-se regra. Todo o conhecimento do mundo em um pires de leite. Ao mesmo tempo, infectamos o resto do mundo com nossa epidêmica tendência destrutiva. Tratados como espólios de guerra, estuprados sem qualquer cerimônia, escasseiam-se os recursos naturais. Seguimos vampirizando, consumindo tudo ao nosso alcance, desde a mais frágil forma de vida. Rasgando. Calcinando. Corroendo. Esterilizando. Uma colônia de parasitas capazes de alimentar-se dos próprios semelhantes, quando lhes convém.
Às armas os bravos! Vamos defender as últimas fagulhas de cordialidade antes que se apaguem para sempre. Antes que humanos, de tão evoluídos, esqueçam-se de respirar. Antes que o virtual devore as entranhas do instinto primitivo que sustenta a própria idéia de humanidade. Antes que percamos irremediavelmente todos os dados deste mundo, que não são nossos. Antes que não haja mais ninguém para programar nossos infinitos aparelhos despertadores. Antes que não haja mais galos para anunciar as manhãs. |
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| February 11, 2008 |
| Fractal Empático Dois olhares depois, tinha certeza: eram as pernas mais bonitas que ele já tinha visto. Ensaiou uma cantada qualquer, mas viu que não era a certa. Pensou em outra e ficou ruborizado por dentro. Essa, não seria capaz de dizer sem gaguejar. Pensou nas mais básicas e sentiu que não teriam qualquer impacto. As belas pernas seguiam seu caminho, alheias ao conflito. Cada vez mais distantes. Nos filmes tudo parecia mais fácil! Bastava um sorriso elegante e... Qual seria o sorriso certo? Correu, perseguindo de uma distância segura os saltos altos e finos. Era melhor dizer logo qualquer coisa, antes que ela o notasse seguindo-a. O que poderia pensar? Viu o prédio em que ela entrou, elegante, decidida. Trabalharia ali? Depois de alguns minutos de aflitiva indecisão, achou por bem voltar ao escritório e pensar nas pernas depois. Agora sabia onde encontrá-la, certo? Amanhã acordaria com a melhor cantada, o melhor perfume e o melhor sorriso do mundo. Seria romântico de fazer inveja ao mais apaixonado dos poetas, brilharia como uma pequena estrela e levaria o belo par de pernas ao seu apartamento, onde redefiniriam o significado de “orgasmos múltiplos”.
Anos depois, tranca-se no banheiro e masturba-se pensando na amiguinha da filha que veio em casa ontem, para estudar. A amiga se transforma na atriz da novela, na modelo da revista que estava na sala do dentista, na mulher do vizinho, na professora da quarta-série, na irmã da esposa que ele não ama desde antes do segundo filho nascer, na estagiária do Rubens e, como num passe de mágica, naquele par de pernas fantástico. Depois de tantos anos, o par de pernas não tem mais um rosto, uma identidade. É só mais um fetiche abandonado em uma ilha de frustrações, acumuladas em uma vida inteira de covardias. Essa noite ele dormirá com o amargo gosto do “e se...?” Arranhando sua garganta, enquanto a esposa ronca ao seu lado, sonhando com os dois rapazes que ela viu nadando na piscina do clube quando foi buscar seu filho do meio. Ele terá um sono agitado. No meio da noite, ele irá ao banheiro, com o jornal do dia na mão esquerda. Não lerá. Ficará sentado no vaso, pensando. Tentará masturbar-se novamente, mas sentir-se-á impotente como nunca. Talvez chore. Provavelmente pense em morte (seja a sua, seja a de sua esposa). Vai ficar lá, completamente derrotado, por bem mais de meia hora. Depois, irá se levantar, tomar algum remédio para os ânimos, ou um conhaque, ou os dois. Ou dois dos dois. Voltará para a cama e acordará atrasado para o trabalho no dia seguinte. E então abraçará novamente sua rotina, independente dos percalços que a vida lhe trará. Confortavelmente. Vez ou outra, vai se masturbar pensando na amiguinha da filha, até morrer engasgado com faisão em um distante Natal chuvoso.
O belo par de pernas seguiu seu caminho. Finalmente começou a namorar sério um rapaz tímido que lhe passou a mais barata das cantadas, mas com tanta honestidade! Casados, viram a magia da paixão virar farelo. Passou a evitar o marido que, solene, aparecia para dormir e jantar. Começou a fantasiar nas poucas vezes em que estava com o marido e nas muitas vezes em que estava só. Resignou-se com a vida pouco emocionante que levava.
Vai passar o resto da vida pegando no pé da filha, que precisa emagrecer, engordar, sair mais, sair menos, educar esses filhos, parar de mimá-los, tirá-la do asilo, deixá-la viver com quem a trate bem. Se pudesse, reclamaria da quantidade de terra que colocarão sobre seu túmulo.
A mulher roncará, cansada de um dia de labuta. Sonhará com os dois rapazes na piscina. Ela não é tão fascinante quanto o belo par de pernas, mas tem seu charme. É engraçada, espontânea, dinâmica, decidida. Foi ela quem deu o primeiro passo no namoro com o homem que hoje é seu marido. Esta noite, enquanto o marido passar seus momentos deprimentes no banheiro, sentirá sua ausência e terá uma epifania. Passará em revista todos esses anos vividos em prol dos filhos, tolerando a displicência e desinteresse do marido. Verá que fez um ótimo trabalho na educação dos garotos que agora, quase adultos, entendem melhor o mundo em que vivem. Passará a mão por seu próprio corpo, sentindo que o tempo, normalmente implacável, tem sido gentil com suas formas atraentes. Até agora. Acordará na manhã seguinte bem cedo, sem acordar o marido (que, sem seu auxílio, acordará atrasado para o trabalho). Comprará o jornal tão logo a banca abra e riscará uma dúzia de empregos possíveis. Irá bem mais cedo buscar o filho no clube, apenas para dizer-lhe que ele já é velho o bastante para voltar para casa sozinho, ou comprar o próprio carro. Arrumará um pretexto qualquer para ficar na borda da piscina enquanto seu filho vai ao vestiário, arrumar-se. E nesse intervalo, falará com o mais bonito dos rapazes que nadavam no dia anterior e tanto lhe chamaram a atenção. Nos próximos meses, começará a corresponder-se com o jovem rapaz. Culpar-se-á por acreditar nas tolices românticas que ele lhe diz, mas, deus, como é bom acreditar! Arrumará um emprego e, antes mesmo de dar o primeiro beijo em sua jovem paixão, sairá de casa e viverá sozinha em um apartamento do centro da cidade, pago com sacrifício e um salário ingrato. Crescerá no escritório ao custo de muito esforço, comida fria e noites mal dormidas. Terá seu primeiro orgasmo em dez anos, na primeira noite em que seu jovem amante ficar até tarde, tarde demais para voltar para casa em uma cidade tão perigosa. Chorará honestamente no ombro de seu amado quando for ao enterro de seu ex-marido, morto pela gula e inépcia na arte da mastigação. Também chorará no mesmo ombro, mas de profunda alegria, quando o jovem lhe pedir em casamento, uma dessas tolices românticas que ninguém consegue entender ou explicar. Quando a filha, despeitada, perguntar-lhe como tem coragem de andar por aí casada com alguém que poderia ser seu filho, ela simplesmente sorrirá e dirá que ele é romântico de fazer inveja ao mais apaixonado dos poetas, brilha como uma pequena estrela e que, juntos, eles redefiniram o significado de “orgasmos múltiplos”.
Não faz a menor diferença como ela morrerá. A grande diferença, toda ela, reside no modo como viveu e viverá. |
| :: Por Caco, o Sapo às 12:49 PM :: 8 comments |
| February 22, 2008 |
| Disasters and disastrous Aí fiquei na dúvida e peço ajuda aos universitários. O desastre dessa foto é: A) A Espanha ainda ter Rainha B) A Rainha ainda respirar c) O laquê da Rainha D) O gosto da Rainha para roupas E) A Rainha, de modo geral F) O gosto do suco de palma G) Tudo o que já fizeram no Cambodja, com destaque para Pol Pot H) O pessoal que seleciona as fotos do dia desse site ![]() |
| :: Por Caco, o Sapo às 07:44 AM :: 2 comments |
| February 29, 2008 |
| Foto Grafia - Tem isqueiro? - Como...? - Isqueiro, você tem? - Ah, tá... Desculpe, estava quase dormindo... Tenho sim. Naquela gaveta ali, olha. Esquerda da cômoda. -Brigada. Levanta preguiçosamente, enrolada no meu roupão, virado do avesso. Mal lhe cobre a pele branca, quase cera à luz que vem dos postes na rua (uma luz teimosa que entra pelas frestas da janela de madeira). Por um segundo, penso que nunca aquele velho roupão pareceu tão bonito. - Isqueiro pra quê? - Vou fumar. Muito clichê? Muito. Muito clichê. E outra, não fumo. Não mais, pelo menos. A casa nova cheirando cigarro, só me faltava essa. - Não, tudo bem. - Você não fuma, né? Acende o cigarro. - Não. Na verdade, não gosto do cheiro. Ela ri. - Nem eu. - Olha, não tenho cinzeiros... -Sem problemas. Com a perna esquerda, empurra um dos lados da janela. Só uma pequena abertura, o suficiente para a Lua observar o que andamos fazendo. Acompanho o movimento suave e decidido, os contornos de sua perna, o pé delicado com as unhas mal pintadas em um tom muito escuro, as coxas levemente úmidas. De imediato, meu sangue volta a perturbar. Ela percebe. - Pensei que você estivesse quase dormindo! Seu sorriso é a coisa mais sacana que já vi na vida. A boca ainda um pouco borrada de batom. Vai dar trabalho tirar tudo isso dos lençóis. Estou ficando velho. - É difícil dormir com você do lado... Ela se finge ofendida - Ah, nem vem! Nunca ninguém reclamou de dormir do meu lado. Sou quentinha e nada espaçosa. Mentira. Faz questão de ocupar o maior espaço possível da cama, ainda que seja uma mulher pequena, magra. Mas quente. Quente, fervendo. Minha testa continua molhada. Ela me olha nos olhos. Os dela são claros e estranhos. Não são bonitos. Perturbadores. - Cara, quanto tempo fazia? Muito. Muito tempo. - Nossa, foi tão ruim assim? Ela pisca. O vento noturno refresca meu peito, carregado com o cheiro dela. - Não, ao contrário! Só achei você animado, disposto demais. - E isso é um problema? - Não. Só não é comum. Ela joga o resto do cigarro pela janela. Eu penso em ralos entupidos. - Acho que você tem andado com os caras errados, então. Arrumo o cabelo dela atrás de sua orelha. Ela deita sobre mim, o rosto muito perto do meu. Sua mão esquerda vai conferir se continuo animado. - Decididamente, os caras errados. Preciso mais disso. Ela me aperta. Em algum lugar em minha mente, o macho ancestral bate no peito, enaltecendo minha virilidade. Experimento uma sensação agradável de poder, de força. Não consigo lembrar quando foi a última vez que me senti tão bem. Deixo transparecer no rosto essa sensação de Macho Alfa. Ela me belisca. - Não fique tão convencido. Todo esse gás é passageiro. Meu ego está inflado demais para perder o jogo assim. - Quem te garante? Talvez você devesse vir mais aqui e conferir... Ela deita o rosto sobre meu peito, a orelha esquerda logo acima de meu coração. - Quem sabe...? Ficamos em silêncio. Acho que cinco minutos, mas que porra eu sei sobre o tempo? - Fazia tempo sim. Ela levanta a cabeça, apoiando o queixo parcialmente em minha clavícula. Incomoda, mas não digo. - Por que? - Não sei. Simplesmente, não é tão simples. - Claro que é. Solteiro, morando sozinho, como não é simples? Acho que você precisa reciclar suas cantadas. - Não é essa a questão. Eu só... Eu não faço muito disso, sabe? Não funciona bem pra mim, esse papo. É preciso rolar alguma conexão, algum interesse mais profundo, sei lá. Eu não estou falando de paixão nem nenhuma dessas tolices românticas, eu só não consigo ser tão casual. - Mamãe falou muito pra não conversar com estranhos, pelo jeito. - Pode ser. Dificilmente vou pra cama com alguém assim, logo de cara. - Praticamente uma dama! - Alguém aqui precisa ser, certo? Outro beliscão. Dessa vez, mais doloroso. - E namoradas? - Não ando tendo tanta sorte assim nos meus relacionamentos. - Pelo visto eu tenho saído com mais garotas do que você. Dou risada. - É possível. Me apresenta algumas, então. Ela pega um copo de refrigerante choco que deixamos ao lado da cama. Dá um grande gole, enquanto observo os movimentos do seu pescoço. Queria poder passar a imagem em câmera lenta. - Alguém especial? - Você diz, agora? - É. - Tinha uma. Estava apaixonado por ela. Fico encabulado em dizer. Era verdade. Estava apaixonado. - Muito? - Bastante. Mais do que deveria, acho. Foi tudo muito rápido. Bobo de minha parte, né? Ela me olha muito atentamente. Não pisca. Olhos perturbadores. - Não. De jeito nenhum. Ela deita novamente. Quero abraçá-la. Ela suspira. Mexe a cabeça, de forma que sua boca está quase em meu ouvido. - Dá pra sentir, sabe? Não sei. Não entendi. - Sentir o que? - Esse seu jeito. Nos seus beijos. - É? O que tem eles? - São apaixonados. Ela me beija. O mundo é clichê. A vida é clichê. Aquele beijo poderia ser, também. Mas não foi. Não foi. Quase de manhã. Ela usa minha camiseta enquanto arruma suas coisas. Fico ostensivamente segurando sua lingerie e seus saltos, enquanto observo seus movimentos. Enquanto se veste e calça as sandálias, se apóia em minha mão. - Você disse que não faz muito dessas. - Verdade. - Mas eu estou aqui. E, na boa, não tivemos tempo pra conexão nenhuma. - Verdade também. - E aí? - Sei lá. Suas pernas são lindas. Ela ri. Ela sabe. - Você é meio tarado, né? - Em pernas? Sim. Me arrependo de não falar da boca. A boca linda e violenta, a boca sacana e descarada. - Você é linda. Ela me beija. Forte. Arranha. - Como faço pra seguir daqui pra zona sul? Explico. Muito mal, mas explico. Meu senso de direção é dos piores. Ofereço café, mas ela recusa. - Preciso ir que ainda tenho que trabalhar hoje. - Me dá seu telefone, então. Ela ri, anota em um papel. - Agora é que vamos conversar, hein? - Geralmente sou bom nisso. A gente é que inverteu tudo. Ela segura o papel. O número do telefone, prisioneiro entre seus dedos. - Isso é igual a tudo o mais, sabia? - É, entendo. - Mas não é, também. Não foi. Sei lá. - Não precisa ser. Não precisa ser nada, na verdade. Mas pode ser algo mais gostoso e menos simples. - A tal conexão, né? - Não é nem isso. Só estou dizendo que foi gostoso. Que é uma lembrança gostosa. Que existe algum significado. Como uma foto bem tirada, sei lá. Viajei? - Não, eu gostei. Uma foto bem tirada. Ela me passa o papel. - Escreve pra mim? Sobre isso? - Sobre hoje? - É! Faz? Quero ver pelos seus olhos. Uma fotografia bem tirada. Eu concordo. Por que não? Nos beijamos novamente, ela já dentro do carro. Uma vizinha olha com interesse. O batom sai do lençol mais fácil do que eu imaginava. O cheiro de cigarro desaparece com a manhã. Fica a foto, bonita, pendurada em uma das paredes da memória. |
| :: Por Caco, o Sapo às 04:33 PM :: 5 comments |
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| Kermit, the Fight Frog |
| .Estudante de Ciências Sociais na USP, doido de pedra. .Pretende se tornar um antropólogo - arqueólogo (sua carreira estará literalmente em ruínas). .Rock de quase todos os tipos. .Ao invés de soltar o Tyler Durden que há em cada um de nós pelas ruas, solta o verbo aqui nesse pedaço virtual de realidade humana. .Yeah , eu sou o paliativo dos humores de Jack... |
| Clube da Luta, por Caco |
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